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As pessoas vão ao Teatro porque sabem que nessa noite o homem pode cair do trapézio (Orson Welles)

3.03.2006

O DOIDO E A MORTE - Estará a paz e a boa vida do Governador prestes a acabar?


Esta é a história de um Governador Civil que finge trabalhar, enquanto se diverte criticando artigos dos jornais e escrevendo peças de teatro sem sucesso, recorrendo mesmo ao plágio, enquanto saboreia um bom café e aprecia um charuto caro.
Sua vida dá uma volta enorme quando recebe no seu gabinete a visita dum conhecido milionário da praça. O homem traz debaixo do braço nada mais nada menos que a morte vestida de bomba, dentro duma caixa de madeira. Accionado já o engenho, nada mais há a fazer, pois tudo irá pelos ares, não poupando ninguém num raio enorme de quilómetros.

Perante tal situação, não são só os personagens da trama que se encontram sob pressão. O próprio espectador sente aquele (como disse Leo Bassi) culo streto, ficando pregado à peça do início ao fim. Um desenvolvimento feliz que desagua num final mais ou menos surpreendente.

Essa é a 37ª produção (não comparem isso com nada no teatro mindelense) do Grupo de Teatro do Centro Cultural Português do Mindelo/ICA que celebra agora mais um aniversário. E vale a pena dizer que é mais uma produção bastante criativa e de óptima qualidade, tal como as 36 anteriores. Uma carreira que serve de exemplo para qualquer grupo de teatro de São Vicente.

Desta vez o grupo criou um espaço alternativo para o espectáculo – o pátio do Centro Cultural do Mindelo – não perdendo contudo um sempre activo e interessado público. Uma peça com uma composição plástica simples mas concisa que, com certeza, conseguiu seus objectivos. Os figurinos estão à medida das personagens e do desenho de luz que implementa um ambiente mais sinistro à trama, principalmente nas cenas dominadas pelo milionário louco (o doido), inteligentemente interpretado por Paulo Santos. A banda sonora da peça, em que alguns trechos/sons foram produzidos e montados por elementos do grupo, também encaixa perfeitamente e não cria tédio nem enjoa. Num tema que sempre será actual, os actores encantam, utilizando uma colocação de voz perfeita, acompanhando uma expressão corporal soberba. Mas o mais lindo da peça é a utilização de meias-máscaras que traçam perfeitamente o perfil de cada personagem.

Mesmo que a peça tenha tido sucesso no espaço alternativo, penso que é perfeitamente adaptável para o palco do auditório do CCM. Espero ver esta peça, mais uma vez no referido auditório com um vasto público. Uma experiência que não significa que o espaço seja melhor ou pior aliás, o sucesso da peça no pátio do CCM fala por si.

Neu Lopes (sarron.com)

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