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1.16.2007

Mesquitela Lima enterrado ontem em Lisboa

O antropólogo cabo-verdiano Augusto Mesquitela Lima foi enterrado ontem, em Lisboa. O decano dos antropólogos cabo-verdianos deixou uma vasta obra, da qual fazem parte alguns estudos sobre a cultura do seu país natal, Cabo Verde. A notícia do seu passamento é hoje referida pelo diário «Público», em artigo de Isabel Salema, «Mesquitela Lima (1929-2007) O antropólogo que começou como funcionário colonial», que «asemanaonline» transcreve na íntegra ao abrigo da parceria existente entre «A Semana» e aquele periódico português.

Augusto Mesquitela Lima era um africanista e visto como um ancião entre a tribo dos antropólogos. Morreu no domingo de manhã, aos 78 anos. O seu maior legado é a criação do Departamento de Antropologia na Universidade Nova de Lisboa. Mesquitela Lima nasceu no Mindelo, em Cabo Verde, a 10 de Janeiro de 1929, numa família com tradições coloniais - o avô foi governador de Cabo Verde. Começa uma carreira de funcionário colonial em 1949, como escriturário da Alfândega de Cabo Verde. Três anos depois, já está em Angola como chefe de posto da Inspecção dos Serviços Administrativos e Negócios Indígenas.

Mas o jovem funcionário colonial sente necessidade de aprofundar os seus conhecimentos e em 1959 chega a Lisboa para estudar no Instituto Superior de Ciências Sociais e Política Ultramarina. Com uma formação em Estudos Políticos e Sociais do Ultramar, volta novamente a Angola para o Instituto de Investigação Científica de Angola, onde acaba a dirigir o Museu de Angola, em Luanda. Uma das suas grandes paixões é, aliás, a arte africana, sendo internacionalmente reconhecido como especialista em arte da África Central. É também um grande coleccionador.

O que é "invulgar na experiência colonial portuguesa é o cruzamento entre a experiência prática e uma formação académica que chega ao doutoramento de Estado em Paris", diz Rui Pereira, colega no Departamento de Antropologia. "Mesquitela Lima começa como funcionário e administrador colonial. Como fruto desse convívio diário, cria um interesse pragmático e procura ter uma formação académica de alto nível. Trabalhou com Lévi-Strauss em Paris na Sorbonne." Ou, como diz Jorge Crespo, também colega no Departamento de Antropologia, "volta ao terreno já com novos instrumentos de investigação, com uma preparação moderna no domínio das ciências sociais".

É em 1977, na Universidade Paris X - Nanterre, que faz o seu doutoramento de Estado. No ano seguinte, diz Jorge Crespo, cria o Departamento de Antropologia na Universidade Nova de Lisboa. "Existe uma grande dívida institucional entre a comunidade dos antropólogos", afirma Rui Pereira, lembrando que Mesquitela Lima também criou o Instituto de Estudos Africanos.

A sua obra de referência é o estudo sobre o grupo étnico kyaka em Angola, uma monografia clássica. Mas também estudou os quiocos, diz Rui Pereria, e os seus interesses estendem-se em múltiplos domínios, desde a antroplogia do religioso ao parentesco, passando pela antropologia do simbólico. Tem inúmeros artigos publicados em Portugal e no estrangeiro. Era um excelente professor, diz Pereira.

Já jubilado, Mesquitela Lima continua a ser visto como "o ancião da tribo dos antropólogos", diz Maria Cardeira da Silva, outra colega da universidade. "Nos últimos anos surgiram visões mais contemporâneas da antropologia, mais deslocadas dos terrenos coloniais, mas é consensual o reconhecimento em relação ao seu papel na fundação da Antropologia como disciplina instituída em Portugal."

Mesquitela Lima foi ontem enterrado no Cemitério do Lumiar, em Lisboa.


in: asemana online

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