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As pessoas vão ao Teatro porque sabem que nessa noite o homem pode cair do trapézio (Orson Welles)

4.28.2006

CRÍTICA

A Greve dos Livros – TIM (Teatro Infantil do Mindelo)

Imaginem que os livros entrem em greve. Não… não falo apenas em relação à peça produzida e apresentada pelo TIM. Falo de uma greve a sério. Nesse caso, se fosse um livro, de certeza que eu aderiria à greve.

Regressemos agora à peça.
Livros importantes como História Universal, Matemática, Enciclopédia, Chiquinho (o dito mais cabo-verdiano dos livros) ou ainda o clássico de Tolstoy Guerra e Paz, representantes de importantes bibliotecas do país (convém dizer que alguns desses representam bibliotecas do mundo inteiro) estão danados com a forma como os humanos os tratam e convocam uma reunião de emergência. Após a apresentação de várias opções, fórmulas, etc. e de terem relatado todo o seu sofrimento chega-se à única solução possível – apresentar uma lista de reivindicações e proclamar uma greve. Só resta saber como fazer chegar a mensagem aos humanos Este é o début para a mais recente criação do TIM – Teatro Infantil do Mindelo.
Se a trupe teve como alvo o público infantil, devo dizer que conseguiram mais do que isso. É importante dizer que as crianças constituem um público bastante exigente, porém bastante participativo. De certeza que, no que diz respeito ao conteúdo da mensagem, as crianças devem ter aprendido a lição e ter sentido mais pena dos livros. É claro que as fábulas tocam mais as crianças, mas penso que aqui não é o caso. Ora, se na realidade os livros não têm bocas, porque não fazê-los falar através da sátira? É claro que isso poderia funcionar como um conto ilustrado ou ainda com um filme de animação. Porém, está certo que não há melhor forma de arte que o teatro para fazer passar a mensagem, uma vez que, além de digerida, há uma interacção do público. Diverti-me, ri-me com os meus filhos, porém muitas vezes senti uma profunda nostalgia, pois eu tenho minha biblioteca pessoal e tenho consciência de como essa “criaturas” têm contribuído sobejamente para o enriquecimento do meu conhecimento, da minha cultura geral, e de minha formação como Homem e como ser.
Falando do ponto de vista técnico, não há nada por aí além. Não esqueçamos que se trata de uma peça infantil (não que as crianças não mereçam sempre a melhor qualidade, mas sim porque não há aqui a necessidade de muita luz ou uma banda sonora especial). Além disso o que importa mais nessa peça são os livros, vítimas dos nossos maus-tratos. Porém há notas importantes da peça, a realçar a encenação que torna a mensagem mais elucidativa, a cenografia (as peças parecem ter sido feitas com mestria) e a interpretação. Por vezes até se esquece que são “apenas” livros – há impressão que são seres mais humanos do que o Homem com todos os seus defeitos e virtudes. Aliás, os defeitos dos livros nascem das mãos dos humanos. Deus criou o Homem mas não o destrói, então porque criámos o livro e o destruímos constantemente?
Vi a peça apenas uma vez. Mas dá-me vontade de vê-la mais. Afinal, é sempre necessário alguma fórmula bijectiva.
Parabéns pela iniciativa, TIM. Continuem!

Neu Lopes
sarron.com

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